Dia 2 do Desafio: Entre o Mato Alto e a Memória


Às vezes, fotografar é como revisitar um lugar que existe mais dentro de você do que no mundo real. Foi assim que comecei o segundo dia do meu desafio: buscar beleza onde, à primeira vista, não há motivo para encontrá-la. Nada de flores, poentes cinematográficos ou paisagens que se arrumam sozinhas. A ideia era simples e incômoda: fotografar o feio.

Saí caminhando pela estrada e ali, no fim do percurso, estava a chácara da minha tia-avó. Um lugar onde já fui criança despreocupada, e que hoje repousa sob um silêncio que parece guardar tudo o que já aconteceu ali.

Da estrada, consegui vê-lo: o celeiro velho, ainda de pé, firme no seu desalinho. O gramado onde um dia brinquei tinha sido engolido pelo mato alto, como se o tempo tivesse decidido deixar as coisas crescerem sem pedir licença. E foi exatamente ali que percebi: o desafio tinha encontrado sua fotografia antes mesmo de eu posicionar o tripé.

Ajustei a câmera com calma. Não era uma cena para pressa, mas para escuta. Usei minha companheira 50mm (ela sempre parece entender quando a foto é mais emocional que estética). Escolhi f/16 para deixar tudo em foco, desde o mato rebelde até as tábuas fatigadas do celeiro. Com ISO 400 e um tempo de exposição de 25 segundos, deixei a luz registrar o abandono com a mesma paciência com que ele se instalou.

Mas a alma da imagem só apareceu no processo seguinte. No Photoshop, reduzi saturação, aprofundei sombras, deixei o arquivo respirar aquele clima de filme de terror suave. Não o horror, mas a atmosfera. A sensação de que alguém viveu ali, de que o tempo tocou cada superfície com mãos lentas.

E então o celeiro ganhou voz.
O mato virou memória.
E o feio, mais uma vez, mostrou que só é feio até alguém decidir olhar de verdade.

Esse segundo dia me lembrou que a fotografia não serve apenas para registrar o belo, mas para revelar o que insiste em existir, mesmo quando ninguém repara.

Ficha técnica – EXIF da fotografia

  • Lente: 50mm

  • Abertura: f/16

  • Tempo de exposição: 25s

  • ISO: 400

  • Modo de captura: Com tripé

  • Câmera: Canon EOS Rebel T7

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