Desafio do Olhar | Dia 1: fotografar o que você ignora
Essa foto nasceu de um desafio simples e, justamente por isso, profundo: fotografe o que você ignora.
A porta da imagem faz parte da casa em que estou morando temporariamente. Uma casa que foi do meu avô. Abro e fecho essa porta todos os dias. Passo por ela incontáveis vezes. E, no alto, sempre esteve um chapéu pendurado.
O chapéu da foto não é o dele. Mas poderia ser. Meu avô sempre deixava o chapéu pendurado ali. Era o gesto automático antes de sair para lidar na chácara. Colocar o chapéu, abrir a porta, seguir o dia. Desde que me mudei para cá, pendurei um chapéu naquele mesmo lugar, quase como um ritual silencioso para manter essa presença viva.
A ironia é que eu quase nunca uso o chapéu. Esqueço. Ele fica ali, imóvel, enquanto eu passo. E passo. E passo. Até que um desafio me obrigou a parar.
Quando a proposta do dia foi fotografar aquilo que ignoro, foi impossível não perceber o quanto essa cena fazia parte da minha rotina e, ao mesmo tempo, o quanto ela estava invisível para mim. O chapéu sempre esteve ali, mas o significado havia adormecido sob o peso do hábito.
A fotografia, nesse momento, não foi sobre técnica. Foi sobre consciência.
Desafios criativos têm esse poder estranho e precioso de deslocar o olhar alguns centímetros. Não criam nada que já não exista. Apenas retiram o véu da pressa, da repetição, do automático. A beleza não surgiu porque eu a inventei, mas porque finalmente parei para vê-la.
Essa imagem carrega memória, ausência, presença e repetição. Uma porta que se abre e se fecha. Um chapéu que espera. Um gesto herdado. Tudo isso estava ali antes do clique. A fotografia apenas acordou o que estava quieto.
É por isso que gosto tanto desse tipo de processo. Eles não prometem fotos espetaculares. Prometem atenção. E quando o olhar se afia, o resultado vem como consequência, não como objetivo.
No fim, percebo que fotografar o que ignoramos é também uma forma de lembrar. Lembrar de pessoas, de histórias, de gestos pequenos que sustentam quem somos. A imagem é só o registro visível de algo que já existia dentro.
E talvez seja exatamente isso que os desafios fazem melhor: nos devolver o que a rotina quase conseguiu apagar.

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