Eu e o Flash: Uma Trégua Temporária no Ensaio de Ballet




Eu sempre tive um leve ranço do flash. Não um ódio declarado, mas evito usar flash sempre que posso. Só que fotografar bailarinas em estúdio é outro jogo. E nesse jogo, o flash manda.


Então fiz o que qualquer fotógrafa teimosa faz. Transformei uma sala da Academia de Dança Pró-Arte em estúdio. Um pano branco gigante pendurado e dois speedlights. Um deles com softbox, tentando suavizar a luz sem perder personalidade. O outro encarregado de iluminar o fundo para que o pano ficasse realmente branco, e as sombras das bailarinas no pano ficassem bem sutis.


As bailarinas chegaram impecáveis e tranquilas. Nada de ansiedade. Elas mandam no próprio corpo desde pequenas, então posar é quase extensão natural da respiração. Cada gesto parecia coreografado para a câmera. Às vezes eu acho que elas já nascem sabendo trabalhar com luz.

A parte boa é que, quando você fotografa alguém que domina cada centímetro do próprio movimento, não existe luta. Existe fluidez. Eu só precisava acompanhar, ajustar o flash quando precisava e apertar o botão. E o flash colaborou. Milagre ou respeito à arte, ainda estou decidindo.

As fotos ficaram lindas. Não por acaso. Ballet clássico tem essa elegância que nem o improviso consegue estragar. Mesmo num estúdio montado a partir de pura vontade, fita crepe e fé, a luz encontrou seu caminho. E nesse caminho, encontrou elas.

A minha parte preferida desse processo é perceber que, mesmo fora da minha zona de conforto, o resultado aparece quando existe entrega dos dois lados. Eu ajusto luz. Elas ajustam o corpo. No meio disso nasce a fotografia que vale a pena guardar.

No fim, saí da sala pensando que talvez eu e o flash ainda não sejamos melhores amigos. Mas já conseguimos dividir o mesmo espaço sem brigar. E quando o assunto é ballet, vale o esforço.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Um desafio fotográfico para destravar o olhar

Como Um Autorretrato Antigo Me Tirou da Maior Estagnação Criativa

Desafio do Olhar | Dia 3: fotografar a sombra